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Soccer «Adoro o cheiro a soccer pela manhã» é um diário de viagem de Sérgio Pereira, enviado especial aos Estados Unidos para cobrir o Mundial 2026
Enviado-especial ao Canadá
Soccer «Adoro o cheiro a soccer pela manhã» é um diário de viagem de Sérgio Pereira, enviado especial aos Estados Unidos para cobrir o Mundial 2026
Enviado-especial ao Canadá
Há dias que testam a nossa fé na humanidade e depois há dias que testam a nossa resistência a bater com toda a fé na humanidade.
Mas vamos por partes.
A minha jornada até Toronto foi uma maratona que começou às oito da manhã. Hora e meia de carro, a burocracia de entregar a viatura, a seca do aeroporto, o voo de três horas e meia, e mais 40 minutos de trânsito até ao hotel. Nada de novo para quem faz um Mundial.
Quando finalmente vi a cama, o meu corpo já não pedia descanso: exigia uma espécie de coma induzido. Olhando assim de fora, fazia sentido: parecia-me um prémio justo do universo.
Mas o universo tem um sentido de humor muito cáustico.
Estava eu naquilo que os antigos costumam chamar o sono dos justos, quando um alarme de incêndio estridente me acordou. Abri a porta, como outros hóspedes, nenhum de nós percebia o que se passava, até que uma voz robótica nos convidou gentilmente a evacuar o edifício pelas escadas.
Havia um incêndio no hotel.
Num ápice, o instinto de sobrevivência resumiu-se a agarrar no passaporte e sair. O resto que ardesse à vontade, mas eu quero voltar a casa.
Desci seis andares a pé, abençoando a sorte de o rececionista não ter atendido ao meu pedido de um andar o mais alto possível: é que o hotel tem vinte pisos.
A escadaria transformou-se, então, num desfile de moda surreal: crianças a chorar, senhoras em pijamas, homens estremunhados. Mas, sublinhe-se, tudo num civismo impecável. O pânico no Canadá é incrivelmente educado e ordeiro.
Ninguém empurra, ninguém grita, foge-se do fogo, sim, mas com elevação.
Quando cheguei cá fora, o cenário era digno de um filme: o trânsito estava cortado, a polícia estava por todo o lado e quatro camiões de bombeiros já montavam guarda ao edifício. Uma operação que, aí sim, começou a deixar-me preocupado.
Cinco ou dez minutos depois, porém, fomos autorizados a voltar aos quartos. Era falso alarme. Ao que tudo indica, alguém achou que puxar a alavanca vermelha do alarme de incêndio era uma excelente ideia.
No regresso ao quarto, a arrastar os pés pelos mesmos seis andares, tirei duas conclusões. A primeira é que a eficiência das autoridades canadianas é admirável. A segunda é que é muito importante ter noção do momento em que se deve parar de beber.
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